REALIDADE

  1. Amargo Trono (Flores Silva/Bira Di Oliveira) Download

  2. Sei... (Flores Silva/Bira Di Oliveira) - Convidada: Cristina Ventura

  3. Gente de Lá (Gonçalo Wagner/Bira Di Oliveira) - Convidado: Flores Silva

  4. Erva de Cheiro (Flores Silva/Bira Di Oliveira)

  5. América Joana (Flores Silva/Bira Di Oliveira)

  6. Realidade (Danilo Braga/Bira Di Oliveira) Download

  7. Ombro a Ombro (Alexandre De La peña/Bira Di Oliveira) Download

  8. Jabaculê (Danilo Braga/Bira Di Oliveira)

  9. Conto do Faquir (Danilo Braga/Bira Di Oliveira) Download

10. A Quem Possa Interessar (Danilo Braga/Bira Di Oliveira)

 

FICHA TÉCNICA:

Produção: Bira Di Oliveira e Fátima Gomes

Direção Artística: Julinho Martins, Everson Dias e Cassio Tucunduva

Direção Musical: Julinho Martins e Alexandre De La Peña

Engenheiro de Gravação: Everson Dias

 

BIRA DI OLIVEIRA: CABEÇA E CORAÇÃO DE DUAS DÉCADAS

DELCIO TEOBALDO (*)

"Que você tenha, hoje, de 4 a 40 anos, o seu íntimo é musical. Não há outra maneira de definir o espírito desta geração. Em duas décadas, especialmente na transição de 60/70, nunca a música – e não houve, neste período, qualquer movimento fora dela – teve tanto significado como instrumento de trabalho. Seja simples mão de obra lucrativa, bandeira de luta ou pura poesia".

HOJE CANTA QUEM QUER

Benditos os que marcaram, com a força desta arte, cada parte da época! Benditos os que passaram de um estágio para outro, sem perder a consciência do seu trabalho. E foram poucos.

Se você acompanhar o processo de coisas que foi se sucedendo com o guitarrista de 60, o violonista de 70 e o portador de qualquer instrumento de sopro ou percussão, dos fins de 70 para cá, vai entender que a música, agora, é uma manifestação espontânea de quem quer usar o som como expressão. Seria dizer que hoje, cada um canta a sua própria realidade, canta quem quer. Isto só se tornou possível com as experiências adquiridas nas décadas anteriores: é a volta, pouco a pouco, ao canto primitivo do homem, livre cantador na super populada aldeia.

Mas é preciso coragem. Coragem, porque as chaves se tornaram mínimas, num mercado cada vez mais estreitado para o artista novo; porque o esquema competitivo é bem mais cruel e poderoso que antes.

Contra isto se buscaram meios de mudança para melhor. Através do cooperativismo, dos discos artesanais e independentes, de acreditar na luta e brigar por um espaço claro e bom dentro dela.

CABEÇA E CORAÇÃO DE DUAS DÉCADAS EM DEZ FAIXAS

O trabalho de BIRA Di OLIVEIRA é fruto deste esquema. E vou mais longe ao afirmar que ele é um dos poucos cantores/compositores surgidos nos últimos anos que trouxe para o disco a soma de gostos e jeitos que as gerações de duas décadas têm experimentado dentro da música. Aliás, hoje, mais do que antes, a música, como arte mais digerível pelo grande público, tem tido a preocupação de registrar a história no seu universo de sons. Como um retrato do tempo. Documentário em forma de cifras.

Neste disco, BIRA Di OLIVEIRA consegue resumir, praticamente, a cabeça e o coração de duas décadas em dez faixas. E diz isto cantando o espírito livre de 60 – "Meu anjo madrileno/ a América é grande, vamos percorrê-la... escalar os Andes!" -; a charge sem auto-censura dos anos 70 – "Toma por baixo do panos estes dez mil réis/ Pago com este tutano o que tu me fez" -; o homem novo de 80 – "É assim que te quero/ Um homem doce, amante, terno / Desses que se quer ao lado/ nas noites de inverno".

E aqui entra um detalhe na estética da linguagem. "É o lado feminino do homem", esclarece BIRA Di OLIVEIRA referindo-se às letras serem escritas, em sua maioria, com a mensagem no feminino. Istoé, o cantor se coloca na posição de mulher, dirigindo seu apelo para o homem. Para mim, isto seria apenas "o lado feminino do homem", visto só como valor estético. É a imagem da própria conquista da mulher de hoje, cujas propostas crescem tanto que o homem se coloca ao sei nível, quando quer dizer, quando quer explicar sentimentos mais profundos e elevados. Aí, já não é nem o caso de dizer que a música não tem sexo, mas entender que ela (a música ou a mulher, tanto faz) se torna cada vez mais um lugar comum na natureza do homem. Como algo necessário, simples, indispensável. Assim é a mulher que mora em nós, botando pra fora unhas, rasgando nosso íntimo.

(DELCIO TEOBALDO é jornalista, músico e escritor, e atualmente é o roteirista do programa "CONVERSA FIADA", da TVE/RJ.